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Âncora: a autonomia de duas crianças ensopadas

6/10/2015

Chovia como há muitos meses São Paulo não via naquela cinzenta manhã de junho. A abertura da Copa do Mundo do Brasil seria em poucos dias, os metroviários tinham decidido por entrar em greve. O caos. Os quase 20 km que a reportagem percorreu em pouco mais de uma hora até chegar a Cotia, na região metropolitana de São Paulo, foram compensados pelas boas-vindas efusivas de Kayo Pereira, 8, e Ana Luíza dos Santos, 10. Eles estavam ensopados.

"Não querem comprar uma rifa?", perguntaram aos visitantes. "É para a nossa festa junina". Anotaram os nomes, explicaram o sorteio e a premiação e entregaram um papelzinho. Lá se foram R$ 5. No Âncora, escola que atende de graça alunos de baixa renda de fundamental 1 e 2 com uma proposta pedagógica totalmente diferente da tradicional, são os alunos que fazem as coisas acontecerem: das festas aos temas que cada um estuda, tudo vem deles. É deles, inclusive, a responsabilidade de guiar os visitantes pela escola e apresentar o modelo pedagógico. (Que fique claro: logo depois, em sala de aula, Kayo e Ana Luíza reapareceram secos).

"Procuramos criar sentido para a aprendizagem. Aqui o conhecimento é construído junto com os educandos, e não para eles. É por isso que o aprendizado é significativo. As crianças dão ideias, sugerem e a gente vai dando o apoio de que elas precisam", afirma Claudia Duarte, coordenadora pedagógica da escola. Para tanto, continua a educadora, a assembleia, em que todos os alunos discutem juntos as normas da escola, algumas ferramentas pedagógicas e a forma como organizam o espaço são fundamentais.

Fisicamente, a escola não se parece nada com escolas tradicionais. A começar por uma lona de circo, que se vê de longe, mesmo antes de chegar ali. Debaixo dela, crianças pulam na cama elástica, se exercitam e estudam. O mesmo ocorre na pista de skate, na quadra, nas áreas verdes ao ar livre -- quando não chove --, no refeitório ou em qualquer outro lugar da instituição.

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Qualquer mesmo. Por lá, tutores e educandos gostam de dizer que o aprendizado pode acontecer em qualquer espaço, e não apenas nas salas de aula -- que, por sinal, também não são nada comuns. Elas não têm carteiras enfileiradas e um professor na frente, ditando o que cada um precisa aprender. São salões com mesas que se juntam ou se separam, conforme o jeito que cada um escolheu estudar naquele dia, se sozinho, em dupla ou em grupo. Tutores ficam disponíveis para ajudar a sanar dúvidas.

As atividades são definidas por cada aluno com seu tutor e anotadas em roteiros de estudo individuais, uma das ferramentas pedagógicas que o Âncora usa para estimular a autonomia e o autoconhecimento dos alunos. Funciona assim: os alunos descobrem interesses específicos, procuram seus tutores e, juntos, constroem uma tabela com objetivos de aprendizagem para um determinado período. Nesse percurso, os alunos estudam conteúdos das mais diversas disciplinas. Se as crianças se interessarem em conhecer assuntos mais profundamente, os tutores estão ali para ajudar. No fim, os alunos têm que desenvolver um projeto a partir do assunto pelo qual se interessaram.

Naquele dia, por causa da chuva, a maior parte dos alunos estava estudando nos salões. Mas Ana Carolina Sá, 10, não. Ela estava sob a lona do circo, com sua tabela periódica e notebook em mãos, estudando como construir um laboratório de química na escola. Uma prima mais velha havia mostrado para ela um material da disciplina, ela se interessou e pediu para a tutora incluir química em seu roteiro. "Eu agora estou pesquisando como montar um laboratório, que equipamentos eu preciso, essas coisas. Para isso, eu preciso estudar sobre química. Assim, eu consigo ensinar os outros. Como é que eu vou ensinar, se eu mesma não souber?", pergunta a menina.

Espera aí. Química, Carol? Mas você só tem 10 anos. "Se eu estivesse em outra escola, eu ainda não ia [estar estudando química] porque eu ainda ia estar no quinto ano. Ainda ia ter que estudar um monte de coisas até chegar em química. Mas já tô adiantada porque eu aprendo as coisas mais rápido. Aqui, assim que eu termino de estudar um assunto, eu posso já passar para outro e aí eu vou aprendendo mais."

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Se quiser, Carol pode oferecer seus conhecimentos recém-adquiridos sobre cádmio e hidrogênio no quadro Preciso de ajuda/Posso ajudar. Como cada aluno tem projetos próprios, conhecimentos e sabe muito de assuntos diferentes, o Âncora usa um quadro para estimular a troca de saberes entre eles, em um espaço em que podem demonstrar fraquezas e exercer a solidariedade sem nenhum tipo de julgamento. É o aprendizado entre pares, que é incentivado em vários outros momentos da rotina da escola.

Os alunos são estimulados, por exemplo, a se reunir em grupo para resolver um problema real. É o caso do grupo do lixo, que envolve várias crianças. No fim de semana anterior, elas tinham conseguido que sete caminhões de lixo fizessem uma coleta especial em uma comunidade dos arredores da escola que não recebe esse serviço regularmente. Agora que o lugar está limpo, os alunos estão estudando como ensinar aos moradores a dar um destino correto aos detritos que produzem.

Provas, eles (quase) não fazem. Mas não significa que não sejam avaliados a todo momento. Uma lista com todos os conteúdos que as crianças precisam dominar ao longo dos anos, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, fica afixada na parede dos salões. Os tutores registram tanto o domínio dos conteúdos demonstrado no desenrolar dos projetos, quanto o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Todos os alunos têm registros individuais atualizados diariamente.

"Aqui não se olha uma classe; se olham crianças, se olham pessoas, individualmente. Isso foi o me fascinou e me estimulou a vir para cá. Eu vi esse respeito pela história de cada um, pelo momento em que cada um está e fiquei", diz Juliana Guida, tutora do Âncora e filósofa por formação.

É assim, com forte envolvimento entre as pessoas, com o incentivo à autonomia dos estudantes, com o desenvolvimento de atividades relacionadas aos interesses e com o estabelecimento de metas e avaliação constante, que o Âncora personaliza o ensino. Ao longo da visita, alunos e educadores repetiam: "Pena que hoje está chovendo tanto. Não dá para ver a escola funcionando direito". Mal sabiam eles o tanto que deu para ver.

Fonte: http://www.porvir.org/especiais/personalizacao/#quem-faz

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